Saindo da Ilha...Rumo à Universidade
Só quem é das ilhas sabe o que é deixar a casa onde crescemos, de um momento para o outro, quando acabámos de cumprir a maioria de idade (alguns nem isso), numa tentativa de começar a preparar um futuro.
Pessoalmente, venho dos Açores e venho aqui contar um pouco da experiência até agora. Enquanto estava no ensino regular, via que muitos ansiavam a mudança, pela ideia de ir para a grande cidade, saindo daquele meio “pequeno”, enquanto que outros como eu nem tanto, mas, o desejo de entrar numa universidade, torna-a inevitável, mas, querendo ou não, o desejo de voltar a casa, mesmo naqueles que desejavam sair de lá, torna-se presente a cada dia que passa.
Antes que tudo, tenho a perfeita noção que a maioria dos alunos em Portugal continental também enfrentam algumas mudanças, por isso não o tomem como crítica. Felizmente têm a sorte de ir a casa nos fins de semana e sejamos sinceros, podem, por exemplo, trazer as famosas “tupperwares” com comidas para a semana, isto enquanto tentamos cozinhar sem queimar nada, são uns sortudos.
Voltando ao tema, para além de não vermos a nossa família por meses, apenas por videochamadas, somos obrigados a lidar com responsabilidades que antes não tínhamos, seja as obrigações como maiores de idade como atividades domésticas principalmente cozinhar (mesmo que seja a desgraça total), tratar da roupa, limpar a casa, coisas que antes contávamos com os nossos pais para o fazer. Aqui estamos por nossa conta e percebemos o que aos nossos pais nos pediam para ajudar e o que reclamavam da quantidade de tarefas.
Isto sem mencionar o complicado que é arranjar um quarto, especialmente sabendo que somos das ilhas pois, infelizmente, existe sempre um certo preconceito com o pessoal dos arquipélagos. Preconceito que acontece com qualquer aluno estrangeiro pois as situações são bastantes semelhantes.
Outra realidade são as “dores de cabeça” que a universidade nos dá porque, primeiramente, não era o sistema que estávamos habituados até então e existem muitas outras situações, de certa maneira injustas, que acabam por acontecer. Um exemplo muito frequente é, por exemplo, planear ir a casa e ser marcado alguma avaliação presencial… relativamente a essa situação sinto que somos prejudicados pois, como as pessoas do continente podem se deslocar de forma rápida à universidade, nós acabamos por ter de cancelar esses planos pois não conseguimos chegar ao nosso destino em tão pouco tempo, isto sem mencionar os cancelamentos dos voos de forma repentina pelo mau tempo ou problemas de logística… tudo faz parte do processo. Somos quase estrangeiros no nosso próprio país.
Mas nem tudo são chatices, pelo contrário, cada vez que encontramos alguém das ilhas é uma festa pois somos orgulhosos no que toca à nossa “terrinha”. Podia continuar a contar o que é a vivência diária de estudantes deslocados, mas deixo isso para os possíveis comentários dos que partilham a mesma situação que eu.
De uma aluna deslocada,
Marta Vicente (a68268)


