Quantas vezes terás de ir?


Ele diz que tem saudades dos dias de sol. Que sente falta da maresia e de sentir os grãos de areia nos pés. Que há muito tempo que não bebe um café em condições e que sente um frio na barriga cada vez que lhe falam em cozido, porque não existe nenhum cozido como o da mãe. Sente até mesmo falta dos dias frios e das chuvas torrenciais.

Mas no fundo, confessa, que o que mais teme são as memórias. Teme que estas se esvaneçam com o tempo e que um dia já não se lembre do que é um por do Sol num dia de Agosto. Que ao invocar a memória já não se lembre da cara dos que deixou. Que já não se lembre o que é acordar com o cheiro a fatias douradas. Que a casa que sempre foi dele, deixe de o ser e que os que o viram crescer não o possam ver envelhecer. 

Deixou a família e os amigos, e embalou os sentimentos no dia em que partiu pela primeira vez. Quando questionado se á procura de uma vida melhor, garante que não, porque não há vida melhor que aquela que leva ao lado de quem ama.

Porque partes então, pergunto eu.

Promete voltar em breve, enquanto abraça, a mulher e o filho pela última vez. Ela olha para ele, sabendo que não será breve o suficiente, que nunca poderá compensar os anos que perde. Também ela teme por ele.

Ao filho abraça com mais força, num pedido de desculpas não pronunciado. Pergunta se será sempre esta memória que o miúdo guardará do pai. O olhar vazio de quem já nada sente. O olhar vazio de quem já partiu demasiadas vezes.

E vai

Foge.

Outra vez.


 

 

Abigail Machado a49886



publicado por - fcar - às 12:12 | comentar | favorito