Incerteza
Há pessoas, espaços e emoções que nos remetem a diversos sentidos, uns que nos marcam outros que nem sabemos compreender a importância de permanecerem na nossa memoria, mas estão lá tão ou mais vivos que outros que classificamos como mais importantes. São imagens, áudios, sensações ou até cheiros.
Até que ponto é possível relembrar um cheiro? Rever um momento de novo? Ouvir o perfeito equilíbrio entre tom e expressividade? Como daquela vez.
Lembro-me claramente de cair na relva do porque, ao lado do meu jardim de infância, ficava com a zona dos joelhos das calças toda castanha e o cheiro da relva húmida entupido no nariz, um cheiro puro, leve e inocente. Como eu adorava construir castelos de areia e piscinas na maré baixa, ouvir o bater das ondas que se faziam acompanhar por gaivotas e as vezes até o vendedor de bolinhas se juntava: Olha a bolinha!, Menina bonita não paga, mas também na come! e sentia-me em casa. Era uma sensação de estabilidade que hoje, só sonho em obter. Tive uma infância sortuda, o meu núcleo familiar era completo, viajava com frequência, sabia me divertir sem o auxílio de meios eletrónicos e cima de tudo era mais fácil naquela altura em que não somos obrigados a fazer as decisões difíceis.
Até que ponto é possível viajar no tempo para: cheirar, abraçar, ouvir e observar de novo? Não sei. A única certeza que tenho é que não me contento com memorias, nem tão pouco com sensações, pois tudo esse pouco consegue provocar em mim um sentimento de incerteza. Será que aconteceu mesmo? E esse é garantidamente um sentimento aterrorizador, como ver uma imagem desfocada e não saber o que fazer para a clarificar.
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