Identidade Brasileira
Eu estava me preparando para aquele dia há muito tempo. Já tinha feito pesquisas, já havia conversado com parentes e assistido palestras de especialistas no assunto. Nada poderia dar errado. Eu ia conseguir. Ia encontrá-la.
No dia escolhido, levantei cedo, me troquei e tomei café da manhã. Lavei a louça, arrumei meu quarto e peguei tudo o que eu iria precisar: um bloco de anotações, uma caneta, minha câmera fotográfica e meu gravador de voz. Deixei um bilhete para a empregada, não iria voltar para o almoço. Fechei a porta de casa, e saí a pé.
Andando pelas ruas, prestava muita atenção em todas as pessoas, todas as cores, todos os sons, todas as rimas e todos os versos. Eu via todos os detalhes. Eu estava pronta, atenta. Ao menor sinal de sua aparição, eu pegaria minha câmera para registrar o momento, e anotaria tanto quanto fosse possível. Como ela é, qual seu tamanho, cheiro. Engraçado como às vezes escutamos a vida inteira sobre algo, sem nunca ter visto, conhecido, encontrado. Meu pai me dizia que era ilusão, que ela não existia. Mas o que ele poderia saber sobre ela? Os especialistas diziam na TV que ela era real, e que não era difícil encontrá-la. Bastava acreditar, ser bom cidadão: votar com consciência, assistir a novela das nove, o programa de domingo.
A primeira vez que a vi, foi perto do centro da cidade. Era final da manhã, perto da hora do almoço. Entrei em um restaurante que tinha as portas para a rua. O lugar era bem ajeitado, charmoso. Pedi uma água e me sentei. Enquanto bebia, me acostumava com os detalhes daquele ambiente. Os garçons, os pratos, as crianças rindo e as pessoas conversando. Na mesa em frente a minha estavam acomodados dois homens bem vestidos. Eles falavam baixo e comiam com classe. Em suas taças, identifiquei um vinho tinto extremamente caro. Quando me dei conta, estava ouvindo a conversa.
“A situação toda é muita complicada. Hoje em dia, todo o cuidado é pouco, você sabe.”
“Sim, meu amigo, sei disso. Ainda assim, tenho certeza que você pode dar um jeitinho.”
“Creio que sim. No fim do dia, todos somos brasileiros, não é mesmo?”
E ali estava ela. Não era o que eu estava esperando. Devia haver algum erro. Não era assim que a descreviam na TV, para o povo. Registrei o momento mesmo assim. Era sua primeira aparição para mim. Logo haveriam outras, e eu encontraria sua verdadeira forma.
Os homens pagaram a conta e foram embora. Eu finalmente pedi meu almoço: risoto de camarão, meu favorito. Afinal, era um grande dia. Pouco tempo depois, o garçom voltou e me disse que não tinha mais nenhum camarão. Só frango. Fiquei irritada, mas aceitei a mudança mesmo assim. Não ia perder mais tempo indo até outro restaurante.
“Olha moça, nosso risoto de camarão é um dos melhores da cidade. Você parece ser do tipo que aprecia um bom risoto. O chef disse que se a senhora quiser, nós podemos dar um jeitinho.”
E foi ali que a vi pela segunda vez, em tão pouco tempo. Ferida pelo tom de voz do garçom, sua expressão corporal, a forma com que arqueou a sobrancelha e pela forma que ela se mostrou novamente para mim, levantei e fui embora. Precisava continuar minha busca em um outro lugar. Aquilo não poderia ser ela. Eu não poderia ser parte dela caso fosse, e eu queria muito pertencer. Doía muito pensar que talvez fosse isso mesmo. Ainda assim, não iria desistir tão cedo. Precisava vê-la mais algumas vezes antes de ter certeza.
Voltei a caminhar pelas ruas, avenidas, praças. O tempo começava a passar, e com o passar do tempo, meu olhar amadurecia e se ajustava ao sol. Passei a enxergá-la. Eu a via nos rostos das pessoas que moram na rua, mas podia ver com mais intensidade na expressão daqueles que passavam por essas pessoas sem enxergá-las. Eu a via na sujeira espalhada pelas praças, calçadas. Nas crianças vendendo doces no farol. Eu via nos prédios mais altos e chiques, via nos engravatados que entravam e saíam deles, sempre ao celular, completamente alheios a sua presença. Eu podia ver como ela acompanhava cada um dos elementos do cenário à minha frente. Eu via sua forma sorrateira, ardilosa, de dentro para fora. Enraizada. Eu via através de todos os detalhes. A tarde se arrastava, ela arrastava as pessoas. Eu entendi que todos rastejamos por causa dela. Enxergava com clareza agora. Enxergava que ela era real, mas que mentiam para nós sobre ela. Não é bonita. É a coisa mais feia que eu já vi na minha vida. Não é receptiva, carinhosa, festeira. Só se você não for brasileiro. Aí é só alegria. Mas se você for analisar friamente suas ações calculistas, ela é extremamente seletiva em relação à nossos conterrâneos. E ela nos instiga, através do pertencimento, a ser tão calculistas quanto.
Quando caiu a noite, desisti de tentar achar um outro lado dela. Não havia nenhum. O que eu achava que encontraria era na verdade mera ideia construída e distribuída por aqueles que enxergavam através dela, mas que não faziam nada para impedi-la. Mídia. Poder. Conforme caminhava no escuro pelas ruas, voltando para minha casa, eu refletia sobre a minha necessidade de pertencer. Queria muito fazer parte de algum coisa. Mas se pertencer significa abraçá-la e aceitá-la de bom grado, então não posso, não quero e não vou.
Beatriz Barbosa Cabral
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