Fênix
Fénix
Ultimamente tenho andado a questionar-me sobre um sonho que pensava há muito ter enterrado e deixado para trás. Mas o problema dos sonhos que nascem colados à nossa essência é que, por mais que sejam "esquecidos", acabam sempre por renascer das cinzas. Sempre pensei que o desejo de ser atriz fosse temporário e que, eventualmente, o bichinho do teatro passaria e eu poderia fingir ser uma pessoa normal. Mas a verdade é que grandes sonhos não se esquecem, e a medida que o tempo passa esse desejo só aumenta. Ainda me lembro das peças que fazia em casa, onde o meu grande público não passava de um espelho. Lembro-me da primeira vez que subi para cima de um palco e fingi ser alguém que não sou. Lembro-me do frio na barriga, da adrenalina, do medo que foi rapidamente substituído por uma ânsia de mais. Lembro-me dos aplausos e, por vezes, quando represento de mim para mim, consigo ouvi-los. Tenho ânsia de aplausos. De ficar a sós com o público. De sair da minha pele e vestir outras. Há dias em que ser quem não sou reconforta-me. Representar é-me medicinal. Não se trata de prestígio, constatei, muito menos de fama. Trata-se de me sentir completa. Mas sempre que penso em aventurar-me neste sonho que, ultimamente, gosta de se equiparar a um pesadelo, apercebo-me de que a teledramaturgia ainda não está totalmente moldada para pessoas como eu. A não ser que faça o mesmo tratamento que o Michael Jackson fez ou que queira fazer de empregada, ladra ou ter um papel tão importante quanto o de figurante. Talvez seja melhor continuar a representar para mim. A perder-me sozinha nos meus devaneios. Quem sabe um dia o sol não brilhará, a tempestade será cinza de algo que já foi e o desejo evapore.
a47410 Isarina João
Ultimamente tenho andado a questionar-me sobre um sonho que pensava há muito ter enterrado e deixado para trás. Mas o problema dos sonhos que nascem colados à nossa essência é que, por mais que sejam "esquecidos", acabam sempre por renascer das cinzas. Sempre pensei que o desejo de ser atriz fosse temporário e que, eventualmente, o bichinho do teatro passaria e eu poderia fingir ser uma pessoa normal. Mas a verdade é que grandes sonhos não se esquecem, e a medida que o tempo passa esse desejo só aumenta. Ainda me lembro das peças que fazia em casa, onde o meu grande público não passava de um espelho. Lembro-me da primeira vez que subi para cima de um palco e fingi ser alguém que não sou. Lembro-me do frio na barriga, da adrenalina, do medo que foi rapidamente substituído por uma ânsia de mais. Lembro-me dos aplausos e, por vezes, quando represento de mim para mim, consigo ouvi-los. Tenho ânsia de aplausos. De ficar a sós com o público. De sair da minha pele e vestir outras. Há dias em que ser quem não sou reconforta-me. Representar é-me medicinal. Não se trata de prestígio, constatei, muito menos de fama. Trata-se de me sentir completa. Mas sempre que penso em aventurar-me neste sonho que, ultimamente, gosta de se equiparar a um pesadelo, apercebo-me de que a teledramaturgia ainda não está totalmente moldada para pessoas como eu. A não ser que faça o mesmo tratamento que o Michael Jackson fez ou que queira fazer de empregada, ladra ou ter um papel tão importante quanto o de figurante. Talvez seja melhor continuar a representar para mim. A perder-me sozinha nos meus devaneios. Quem sabe um dia o sol não brilhará, a tempestade será cinza de algo que já foi e o desejo evapore.
a47410 Isarina João


