Nós, alentejanos, somos bombardeados desde pequeninos (especialmente em períodos de seca mais agravada) com campanhas de sensibilização, palestras, teatros de fantoches, tudo e mais alguma coisa para que percebamos o valor que água tem, particularmente no sul do país. A verdade é que o Sul tem uma grande desvantagem geográfica. Enquanto que no Norte encontramos rios, riachos e ribeiras por tudo o que é lado, na minha zona temos o Guadiana que, ainda assim, é metade espanhol, e uns barrancos por aqui e por ali que nem para lavar meias servem. Estou a brincar convosco, também temos o Sado e o Mira, mas de qualquer forma, usufruímos de pouquíssimos recursos hídricos.
Agora num tom mais sério. Esta desigualdade na (in)existência de recursos hídricos explica-se pelo clima e pelo relevo das regiões e, quanto a isso, nada podemos fazer. O que é curioso, no caso do Alentejo, é que, independentemente da sua escassez hídrica crónica, é a região portuguesa com a maior Superfície Agrícola Utilizada (SAU), graças, claro está, às suas extensas planícies. Esta incompatibilidade, há um século, não estabelecia grandes problemas logísticos – a agricultura era de sequeiro, seguindo um regime extensivo. Foi com a entrada de Portugal na Comunidade Económica Europeia, e consequente adesão à Política Agrícola Comum (PAC), que o panorama se alterou para aquilo que hoje conhecemos. A PAC impôs uma reorganização forçada das estruturas agrícolas portuguesas, numa tentativa de aumentar a produtividade e eficiência da agricultura, tentando igualá-la aos padrões que se verificavam noutros países europeus. De forma a que isto acontecesse, teve de haver um descuido proposital nas especificidades da nossa produção agrícola. É por este motivo que hoje encontramos milheirais de regadio no Alentejo, a zona com os mais áridos solos de Portugal.
É óbvio que para reconverter toda a prática agrícola alentejana, se teve de recorrer à construção de barragens. Se não tivéssemos o Alqueva seria completamente impensável a existência de culturas de regadio, mas toda a sua edificação, também ela, não esteve, nem está, livre do seu exclusivo conjunto de condicionantes, que falarei em seguida.
Portanto, o Alentejo vive contínuos períodos de seca e, concomitantemente, é o maior produtor agrícola em Portugal, graças ao Alqueva. Este poético contrassenso, adveio para dar resposta a ideais de crescimento económico completamente insustentáveis. Em prol do desenvolvimento da economia nacional, comprometeu-se a qualidade de vida a médio e longo-prazo da população alentejana e danificaram-se habitats naturais.
A luta contra a seca, a meu ver, acabou por acentuar a seca. Passo a explicar. As barragens construídas para dar resposta à nova realidade agrícola fizeram com que a maior parte da água disponível se concentrasse nas suas bacias, canalizando-a, sobretudo, para o regadio, sendo o abastecimento da população ou deixado para segundo plano, ou efetuado mediante custos inflacionados. A jusante das barragens, os caudais minguam, graças à pressão que a sobre-exploração agrícola causa nas barragens em si.
Verifica-se, assim, que os contras das barragens se sobrepõem aos prós. Eis os impactes ecológicos no caso de Alqueva:
- Destruiu 250 km de território (algumas povoações, como a Aldeia da Luz, tiveram de ser abandonadas para a construção da barragem);
-Comprometeu áreas importantes onde habitavam/habitam espécies raras e/ou em ameaça de extinção;
-Afetou habitats e alterou ecossistemas.
A verdade é que os períodos de seca são cada vez maiores e mais gravosos, e, para além do peso que a agricultura tem nesta situação, as alterações climáticas também detêm grande parte da culpa. A resolução ou atenuação da seca no Sul dificilmente vai ser realizada durante a nossa vida, pois as perdas que a implementação de medidas “a sério” causariam aos latifundiários e ao país seriam incomensuráveis. O PIB diminuiria imenso e a dependência externa, por sua vez, iria aumentar. O modelo económico que sustentamos não cederá tão cedo.
Na minha opinião, o objetivo deverá ser a adequação das culturas aos diferentes solos e, para isso, devemos começar hoje a educar-nos a nós e aos nossos. Iniciemos o processo com medidas simples, passo a passo. Concluamos o processo com um Portugal sustentável. As sementes do futuro devem ser plantadas agora, para serem colhidas pelos nossos sucessores.
Luís Coelho| a68266