Ensino Superior: para todos ou para ninguém

Na passada terça-feira, dia 16 de Abril, realizámos o 4º debate do “Perspetivas” em que o tema foi as “Praxes: que propósito se cumprem?”. O debate teve a participaçãomais alta de todas até então e considero que foi um sucesso, com boas intervenções tanto de discentes como de docentes da Universidade do Algarve.
No entanto, houve uma declaração que me marcou e é exactamente para responder à mesma que agora escrevo.
Na intervenção em questão, numa altura do debate em que se enfatizava a questão do traje académico e se estecontribuía ou não para o fim das desigualdades entre estudantes, a participante afirmou que não considerava que toda a gente deveria ter acesso ao ensino superior. Ora, eu não poderia estar mais em desacordo.
Um dos argumentos utilizados foi o de que nem todos nós podemos ser engenheiros, médicos, jornalistas, etc. Bem,apesar de ter dito que estava em desacordo com a suaopinião, vou ter de concordar com esta premissa.
Infelizmente, o mercado de trabalho não consegue absorver os licenciados de todas as áreas disponíveis em Portugal e, por razões óbvias, isso faz com que muita gente acabe em áreas que simplesmente não são as que pretendia. Utilizando o meu próprio caso, quando terminei o 12º ano de escolaridade também me vi confrontado com a impossibilidade de escolher aquilo que mais gostava. Posso garantir que, se o mercado de trabalho fosse ligeiramente diferente, eu trocaria num abrir e fechar de olhos a minha universidade, o meu curso e até os meus colegas para estudar e trabalhar na minha área predilecta. Mas, de facto, nem todos podemos ser engenheiros, médicos, jornalistas, etc.
Atenção que não me quero apresentar simplesmente como uma pobre vítima do sistema. Sempre fui um aluno medíocre e com muito pouco para contribuir para a sociedade em termos académicos, por isso é normal que não consiga atingir tudo aquilo que idilicamente gostava de cumprir. Além disso, e perdoem-me a franqueza,dureza e arrogância das palavras, sempre vi pessoas com ainda menos capacidades que eu no ensino superior e que certamente também não vão atingir o que pretendem. Mas reparem, nem por um segundo considerei que não tinham motivos ou, pior ainda, direito de prosseguir os seus estudos e que devessem ter ficado pelo ensino obrigatório.
Será que todos nós, que nos pautamos pela mediocridade, se estivéssemos a trabalhar (num trabalho equivalente à nossa capacidade) e deixássemos os estudos para quem é, realmente, excepcional não faríamos melhor? Não, digo-vos. Mil vezes não!
Durante muito tempo se lutou para que o ensino superior deixasse de ser só para uma elite e fosse completamente acessível a todos, e mesmo assim isso ainda não foi cumprido totalmente. Defender algo como isto, de que o ensino superior não é para todos, é simplesmente desejar que se perpetuem as desigualdades numa sociedade que é fortemente assombrada pela existência das mesmas.
O ensino superior é um espaço de formação individual e colectiva que transcende, e em muito, a aprendizagem de um ofício específico (engenharia, medicina, jornalismo, etc.). O ensino superior é a criação de uma oportunidade para qualquer pessoa, sem excepção.
Aliás, não há nenhuma razão, para além da escolha estritamente pessoal, aceitável para a não ingressão no ensino universitário. Creio que a mesma interveniente disse que também não poderíamos ter atribuição de bolsas para todos os estudantes, mas não querendo estender sobre o assunto, quero dizer apenas que se não é atribuída bolsa de valores a toda a gente, então devia sê-lo e o quanto antes!
Concluindo, o problema não é tirar um curso e acabar a trabalhar numa área diferente, o problema é acabar com um emprego precário e extremamente mal pago. Com os sonhos desfeitos podemos nós bem, com a ausência de condições dignas e de um futuro é que não.
Ricardo Martins
Nº 44524
publicado por - fcar - às 21:01 | comentar | favorito